Episódio 5: Curativo
A ceremony honoring the Africans whose lives were lost on the Portuguese ship São José Paquete d’Africa shows Tara the healing power of diving for shipwrecks from the slave trade.

National Geographic Explorer Tara Roberts begins to understand the healing power of diving for shipwrecks from the slave trade when she learns of a ceremony that honored the 212 Africans lost aboard the Portuguese ship São José Paquete d’Africa. Diver Kamau Sadiki, Smithsonian Secretary Lonnie Bunch III, and South African luminary Albie Sachs take turns describing the ritual, held in both Mozambique and South Africa, which brought tears, reflection, and resolution. Tara invites fellow Explorer Alyea Pierce to help visualize the centuries-long disintegration of the São José, which sank off the coast of Cape Town in 1794.
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TRANSCRIPT
TARA ROBERTS (APRESENTADORA): Em 27 de dezembro de 1794, o navio português São José naufraga perto da costa da Cidade do Cabo, na África do Sul.
Ele leva provavelmente umas três horas para chegar até o fundo do oceano.
Passa um dia.
ALYEA PIERCE (POETA): E o frio das águas deixa o navio sem ar. A areia ainda se assenta depois do forte estrondo. A correnteza rasga o tecido das velas e arrasta as cordas esfarrapadas pelas encostas submarinas
ROBERTS: Passa um mês.
PIERCE: O São José é colonizado pelo mar. A força das ondas leva e traz o corpo machucado do navio como numa dança. Os animais marinhos se escondem em suas tocas e se perguntam: “o que é isso?”. “Como chegou até aqui?”
ROBERTS: Passa um ano.
PIERCE: Uma floresta de algas pardas se contorce ao redor do lastro de ferro corroído. As fixações e o revestimento de cobre se enferrujam.
ROBERTS: Um século.
PIERCE: Mais de 300 toneladas de embarcação agora jazem incrustadas em corais. São apenas fragmentos que nos fazem lembrar da imensidão do oceano
ROBERTS: Duzentos anos.
PIERCE: Uma janela ao passado. Réplicas da memória revestidas de rochas e tempo. As criaturas marinhas relaxam enquanto esse fóssil, invisível a olhos inexperientes, se torna sua casa.
ROBERTS: Até ele ser descoberto por mergulhadores. E depois ser confirmado.
KAMAU SADIKI (MERGULHADOR): Estava incrustado. Estava completamente grudado no material, mas a forma... tinha um nó, uma haste e outro nó.
ROBERTS: Kamau Sadiki, da Diving with a Purpose.
SADIKI: Sim, eram grilhões...
ROBERTS: Sabe, é difícil ouvir sobre… falar sobre… e até trabalhar com esses navios.
SADIKI: Era como se eu pudesse ouvir os gritos, a dor e o sofrimento que aquelas pessoas devem ter vivenciado. E a agonia de estarem acorrentadas a um navio que naufraga, que vai afundando e se despedaçando no mar.
ROBERTS: A dor deve ser impossível de suportar.
SADIKI: Sabe, quando mergulhamos, usamos uma máscara e às vezes ela fica embaçada. Mas no meu caso, isso aconteceu por causa das lágrimas. Eu simplesmente não... não consegui aguentar. Então, fiz o seguinte. Coloquei um pouco de água na máscara, lavei e deixei as lágrimas irem embora.
ROBERTS: Mas como disse Lonnie Bunch, Secretário da Instituição Smithsoniana, precisamos olhar para trás.
LONNIE BUNCH III (HISTORIADOR): Não é possível uma reparação e reconciliação sem encontrar o verdadeiro passado, sem uma compreensão nua e crua de quem somos.
ROBERTS: E qual é a verdade nua e crua quando falamos do comércio de escravos? Como podemos contar a verdade sobre esse momento doloroso e traumático sem nos traumatizar nem traumatizar os outros?
Durante os últimos quatro episódios, tentamos fazer isso com cuidado.
Compartilhamos com vocês os naufrágios de quatro navios que traficavam africanos às Américas: o Henrietta Marie, o Guerrero, o Fredericus Quartus e o Christianius Quintus.
Cerca de 250 almas perdidas.
Falei muito sobre os ataques, a navegação, os naufrágios, a dor. Falei até sobre a maravilha de encontrar artefatos debaixo d´água.
Mas agora a minha pergunta é mais uma questão de coração e alma. Tanto em relação à forma de fazer este podcast, de mergulhar nesses navios, de escolher que livros ler, que filmes ver ou que notícias acompanhar... De que maneira interagimos com as histórias sobre o comércio de escravos e como podemos nos cuidar?
Obtive algumas respostas neste episódio por meio da história do São José Paquete d’África. O São José viajou de Lisboa, Portugal, até a Ilha de Moçambique.
Lá, os traficantes carregaram mais de 400 pessoas, provavelmente do grupo étnico Makua, no porão do navio.
A embarcação se dirigia ao Brasil, mas encontrou seu destino final na Cidade do Cabo, na África do Sul, matando cerca de metade das pessoas a bordo.
A história poderia ter terminado aí, em tragédia. Mas um grupo de historiadores, arqueólogos, mergulhadores e descendentes se uniu para superar o trauma e trazer reparação à comunidade. Essa é uma lição de cuidado coletivo da alma.
Eu sou Tara Roberts, e este é o Episódio 5 de Into The Depths. Com vocês, logo após o intervalo.
[VOZ DE FUNDO] KAMAU SADIKI (MERGULHADOR): OK. Viu aquilo? OK. Se você descer do barco e for por aqui, você vai chegar até a base… (voz vai diminuindo/diálogo inaudível)
ROBERTS: Primeiro, vamos conhecer oficialmente um dos meus mentores de mergulho ao longo de toda esta jornada.
[VOZ DE FUNDO] SADIKI: Todo mundo pronto? Estamos registrando? OK, um último comentário… (voz vai diminuindo/diálogo inaudível)
ROBERTS: Kamau Sadiki. Foi ele que vocês escutaram antes. Alto, magro e vigoroso, com um cabelo afro como o negro dos anos 70 que eu sei que ele foi. Ele é um engenheiro aposentado, piloto, professor de ioga e pai.
SADIKI: Meu nome completo é Kamau Beyeti Anon Sadiki. Beyeti significa alguém que existe entre Deus e a humanidade. Sadiki significa confiável e leal.
ROBERTS: Kamau é instrutor líder de mergulho da Diving With a Purpose há aproximadamente 10 anos. E ele não tem nenhum medo de encarar esta história.
SADIKI: Quero que deixemos para trás a vergonha e o silêncio. A única forma de fazer isso é através de um profundo envolvimento com a história. Devemos ser capazes de contar a história sob a nossa perspectiva, não com base em suposições e especulações, mas realmente nos envolvendo com os dados e criando uma narrativa para que as pessoas entendam a verdadeira essência de tudo isso.
ROBERTS: Há alguns anos, Kamau trabalhou no projeto Slave Wrecks para identificar o São José.
Agora, o projeto Slave Wrecks é uma linda rede internacional de organizações colaboradoras cuja missão é ajudar a descobrir e documentar naufrágios de navios negreiros. Ele é coordenado pelo Blacksonian, o Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana que foi dirigido por Lonnie Bunch. E a Diving With a Purpose é uma instituição parceira.
O Slave Wrecks tinha a missão de confirmar a identidade do São José. A pesquisa sugeria que o navio poderia estar localizado na praia de Clifton, na Cidade do Cabo, mas faltavam evidências.
Kamau era um dos mergulhadores da equipe. O dia do mergulho estava tranquilo, mas a água estava fria.
SADIKI: A água estava a uma temperatura de cerca de 7 graus Celsius. Além de a água estar fria, havia muita ondulação, ou seja, a água se movia para frente e para trás. Eram ondas de entre 3 e 4 metros e meio, que nos levavam para a frente e para trás assim. E cada vez que passa uma onda desse tipo, ela levanta a areia branca do fundo.
E também havia algas pardas. Existe uma espécie de floresta de algas lá. Estávamos mergulhando nessas condições, sendo jogados contra as rochas, tentando manter a draga firme.
Muito material do naufrágio ficou preso no rochedo, depois se assentou e ficou travado entre as rochas, e a areia foi se depositando em cima disso tudo.
Também tínhamos algumas pistas magnéticas que estávamos checando. Usávamos o magnetômetro para saber se havia uma grande quantidade de metal lá embaixo.
ROBERTS: Eles encontraram grilhões. Encontraram pedras de lastro. E encontraram a prova cabal: madeira.
Eles testaram as amostras e concluíram que aquela madeira no fundo do mar era de um tipo raro que se encontrava somente em certos lugares do interior de Moçambique. Essa análise levou a equipe de volta para os arquivos, para uma pesquisa arqueológica mais terrestre, que apontava ao povo Makua e à ilha de Moçambique.
Essa e outras descobertas permitiram identificar o navio e as pessoas em seu porão. Missão cumprida.
A equipe decidiu compartilhar a notícia com os descendentes em Moçambique.
Uma pequena ilha ao norte de Moçambique, com apenas 3 quilômetros de comprimento e menos de 400 metros de largura. Era a capital colonial de Moçambique entre os séculos XVI e XIX. Os colonizadores portugueses transformaram essa pequena ilha no centro do comércio de escravos em Moçambique, com centenas de milhares de africanos traficados.
BUNCH III: Quando soube que se tratava do povo Makua de Moçambique, eu senti uma obrigação muito forte de ir até lá.
Que é um lugar de uma beleza inacreditável. Isso me fez pensar imediatamente no contraste entre a beleza que havia ao meu redor e o que o foi a escravidão.
Eu me encontrei com o chefe do povo Makua.
ROBERTS: Senhor Evano Nhogache, o líder Makua de maior hierarquia aqui.
A equipe do projeto Slave Wrecks deu a notícia ao chefe e aos membros da etnia Makua e mostrou as evidências do São José.
BUNCH III: Fui apresentado a uma mulher que tinha provavelmente uns 35 anos. Ela falou sobre um antepassado que estava no São José e tinha desaparecido. E falou sobre como sua família se lembrava dele todos os dias. E eu entendi que aquilo tinha a ver tanto com o presente e o futuro quanto com o passado.
BUNCH III: Quando falaram para eu me levantar e ficar ao lado do chefe, ele olhou para mim e disse que seus antepassados tinham pedido – não, ele disse, que eles tinham implorado que eu fizesse um favor. E ele falou: “temos este presente para você”.
SADIKI: Ele pegou um pouco de terra da comunidade e uma espécie de cesta coberta de búzios. Então, ele chamou o Dr. Bunch e falou, de uma maneira muito forte, que esse era o solo da comunidade. Quero que você leve esta terra até onde o navio afundou para que os nossos ancestrais saibam que ainda estamos aqui. De certa forma, quero que você traga essas pessoas de volta à casa.
BUNCH III: Eu estava olhando para aquela bela vasilha cravejada de búzios, de uma brancura reluzente. E quando abri, estava cheia de terra. Lembro que pensei: “Hm, não entendo o que é isso. Como pode ser um presente? O que os ancestrais pediram?”. Com os olhos marejados, ele disse que seus ancestrais tinham pedido que eu voltasse para a África do Sul, onde estava o navio, e espalhasse a terra no local do naufrágio para que, pela primeira vez desde 1794, aquelas pessoas pudessem dormir em seu próprio solo.
Não aguentei. E comecei a chorar. Sabe, estava tentando não derrubar a vasilha no chão. Pensando nas contradições, na beleza ao meu redor, no fato de ser historiador, mas aquilo se tratava de como as pessoas do presente pensam e sentem.
E ter aquela vasilha nas mãos era quase como se estivesse carregando um peso de ferro. Era tão pesada. Na verdade, ela não era pesada, mas parecia. E pensei: por favor, não a deixe cair. Dê a ela todo o cuidado que merece.
ROBERTS: Eu viajei para a ilha de Moçambique com Kamau e a equipe do Slave Wrecks depois que tudo isso aconteceu e fui até o lugar da cerimônia.
Conheci o Senhor Nhogache e conversei com outros mergulhadores Makua, como Amade, Dinho, Samira.
Estar ali fisicamente de novo, sentir as emoções residuais, a energia que continuava existindo naquele lugar me afetou.
Vamos falar mais sobre isso depois do intervalo.
ROBERTS: Lonnie e Kamau e outros membros do projeto Slave Wrecks levaram a vasilha com búzios e a terra para o local do naufrágio na praia de Clifton, na Cidade do Cabo.
ALBIE SACHS (ATIVISTA): Tinha chovido o dia todo.
BUNCH III: Conhecemos o Albie Sachs, o grande juiz e líder que lutou pela liberdade de Nelson Mandela e escreveu a primeira constituição da África do Sul. E a casa dele tinha vista para as águas onde o São José estava.
ROBERTS: Albie perdeu um braço e ficou cego de um olho por causa de um carro bomba, uma retaliação por sua incansável luta contra o apartheid. O presidente Nelson Mandela o nomeou como juiz da corte suprema. O presidente Barack Obama o premiou com uma medalha Lincoln.
SACHS: Fizemos a cerimônia na minha casa.
BUNCH III: Foi realmente irônico, porque essa é uma das zonas mais chiques da Cidade do Cabo. Mas o contexto, na verdade, era de dor, memória e perda. Estávamos chegando na casa do Albie e chovia a cântaros. Era inacreditável. Pareciam as monções. E chegamos lá literalmente ensopados. Eu olhei pela janela dele que tem vista para o mar.
De repente, eu senti que... Eu me perguntei se tinha sido assim no dia em que o São José afundou. O vento estava tão forte, empurrando tanto as correntes, que tínhamos planejado sair com os barcos, mas os barcos não podiam sair. Como a maré e o vento estavam tão fortes, eu me perguntei se foi assim no dia em que o navio naufragou. Estávamos ali ensopados, imersos em nossas emoções.
SACHS: Foi uma cerimônia maravilhosa e muito especial.
ROBERTS: A maior parte do grupo ficou na varanda do Albie por causa do clima. Somente os três mergulhadores foram até a praia: Kamau, representando os Estados Unidos; Yara, uma mergulhadora moçambicana; e Tara (não eu), uma mergulhadora e arqueóloga marinha da África do Sul.
Os três mergulhadores…
SADIKI: As ondas estavam arrebentando com muita força. Acho que eram ondas de dois metros e meio, três. Elas quase nos arrastaram, nos surpreenderam algumas vezes. Na arrebentação, as ondas estavam muito altas. E havia vento. Então ficamos ali em alerta, avaliando a situação. Nós três fomos em direção à arrebentação, o mais longe possível sem sermos arrastados.
Quando chegamos à arrebentação, paramos ali por uns instantes, e eu ia... Não sei se vocês conhecem a cena da série Raízes, quando o bebê nasce e o seguram e levantam. Sabe, aquela cerimônia. Eu tinha pensado em fazer isso, mas chegando à arrebentação, foi tão... As emoções entre nós três eram tão intensas... Dava para perceber só de olhar para a cara um do outro. Não precisava dizer nada. De qualquer modo, eu estava sem palavras. Não saía nada. Eu até tentei dizer alguma coisa, mas acho que aquele era um momento de silêncio. Eu simplesmente não conseguia falar. E começaram a cair lágrimas dos olhos dos três, foi um momento muito emotivo. Então, eu abri a cesta.
A Yara se aproximou e pegou um punhado de terra. E ela começou a espalhar essa terra. A Tara fez a mesma coisa. Por último, eu fiz o mesmo. Depois, descemos até o fundo e depositamos a terra que sobrou no oceano. E ficamos ali por uns instantes. Houve um momento em que só ficamos ali, abraçados. Só deixando que as ondas batessem e nos lavassem.
ROBERTS: Talvez os antepassados tenham escutado.
SADIKI: Assim que a Yara voltou para a areia, o mar se acalmou. Aliás, as nuvens se dissiparam, o céu se abriu e o sol apareceu brilhando. Eu sei que parece inacreditável, mas foi assim que tudo aconteceu. Sabe? Eu me lembro da calma do mar.
BUNCH III: E quando eles espalharam a terra, a chuva parou. O vento parou de soprar e o sol saiu. Foi como num filme. De repente, o dia ficou claro, iluminado. No começo, me deu medo. Eu pensei: não temos que brincar com os ancestrais. Mas, na verdade, aquilo me mostrou o poder da memória.
Mesmo que muito provavelmente meus antepassados não tenham vindo de Moçambique, senti a dor dos meus próprios ancestrais. Senti a viagem deles pelo Atlântico. De repente, vi um só povo, independentemente de diferenças tribais e regionais. Naquele momento, senti o que deve significar estar conectado a um lugar e ser levado à força de lá.
SACHS: Foi como liberar a nossa praia. Foi emocionante para mim.
ROBERTS: Foi a primeira vez em que vi realmente o poder de cura desses navios.
Eu estava começando a entender a magia sutil, silenciosa, porém enorme desse trabalho.
Como o Kamau viu tudo isso?
SADIKI: Foi um momento de compreensão. Foi inspirador, principalmente por nos conectarmos diretamente com descendentes de pessoas que estavam naqueles navios. E só o fato de estar ali, onde aquelas embarcações se encontram, no fundo do mar. Não foi uma gratificação apenas profissional; pessoalmente e espiritualmente também foi muito reconfortante, profundo e até inspirador.
ROBERTS: Como você lidou pessoalmente com o trauma do trabalho?
SADIKI: Temos que ir além da vergonha e do silêncio que rondam há tanto tempo esses navios e da questão do comércio transatlântico de escravos.
Imaginem... Eu tenho dois filhos. Imaginem a minha filha sentada na sala de aula enquanto eles falam sobre a escravidão. E ela não tem consciência nem contexto para comentar aquilo, certo? Mas, se ela soubesse que houve resistência... Que aquelas pessoas eram seres humanos... Havia pessoas incríveis naqueles navios cujas vidas foram interrompidas; famílias foram destruídas, estirpes foram dizimadas. Talvez, alguma daquelas pessoas poderia ter descoberto a cura do câncer.
ROBERTS: Para Albie…
SACHS: Estou conhecendo cientistas, conhecendo mergulhadores. Estou conhecendo pessoas de diversos países, me conectando com elas. Estou aprendendo como restaurar algo que esteve debaixo d’água durante dois séculos. A boa e velha ciência. De certa forma, a ciência está sendo desacreditada por ser fria. Para mim, é muito bonito ver a recuperação da crença na ciência como um instrumento de empenho, avanço, cura. Nesse caso, a cura é social.
ROBERTS: E agora estou de volta com a minha pergunta do início. Como é possível falar sobre esse passado difícil sem provocar traumas?
Seja por meio de histórias, educação, exposições em museus...
Para o Lonnie, como administrador de museus, o essencial é...
BUNCH III: criar a tensão ideal entre tragédia e resiliência. Entre esperança e vitimização.
ROBERTS: Isso faz sentido. Equilíbrio.
Os navios em si e as cerimônias e rituais relacionados a eles também nos dão uma oportunidade de superar o trauma.
A cerimônia do São José permitiu trazer aquelas pessoas do passado para o presente e possibilitou um vínculo real com aquela “família fantasma” que a Anna mencionou no episódio anterior.
Ela fechou um ciclo.
ROBERTS: Fui à casa do Albie para uma festa de fim de ano improvisada. Ele e a esposa Vanessa estavam comemorando com um grupo variado de parentes e amigos que estavam na cidade.
Eu sentia a maresia da varanda. Dava para ouvir o burburinho das conversas dos vizinhos nos bangalôs ali perto e o riso das crianças enquanto brincavam nas águas geladas. Eu entrava e saía de conversas com ativistas, jornalistas, inovadores sociais. Comi bolo de abóbora fresquinho e tomei água tônica.
Eu me sentei ao lado do Albie e conversei com ele sobre a praia de Clifton, sobre como a maior parte dos moradores não fazia ideia de que a uns 50 metros da areia havia um naufrágio.
SACHS: Aconteceu no nosso paraíso. Sir Francis Drake circum-navegava o mundo. Ele parou na Cidade do Cabo e a descreveu como o cabo mais belo que ele já tinha visto. Então, este é o cabo mais belo. E pense na ironia disso: o cabo mais belo é também o mais injusto.
Eu fico olhando pra lá e tudo é tão bonito. Você vê as ondas que vêm e vão, as praias próximas. Tudo é tão tranquilo. E nós, tão seguros em nossas casas, olhando para fora. Eu penso na alegria que foi ter crescido na praia. Tudo é tão agradável, tão lindo. Este lugar é uma espécie de paraíso. E nesse paraíso, existiu um inferno. Eu não consigo visualizar as pessoas, é demais para mim imaginar as pessoas se afogando. Eu consigo ver as vigas de madeira e os pedaços de metal repousando no leito do oceano.
ROBERTS: Observamos o sol enquanto ele começava sua viagem de volta à casa, depois de um longo dia de trabalho.
Peguei minha câmera para tirar uma foto do Albie na varanda, em frente ao lugar onde o São José naufragou. Atrás dele, eu podia ver uma palmeira na areia e duas rochas sobressaindo da água, marcando de forma visível o que havia embaixo.
Mas o Albie se inclinou quando eu apertei o botão e disse no meu ouvido: “não consigo sorrir diante disto”.
Era como se o resto da casa estivesse no escuro, como num palco em que somente Albie e eu — e o naufrágio — estivéssemos sob os holofotes.
E o curioso é que... A festa de fim de ano na casa do Albie e essa conversa aconteceram ao redor do dia 27 de dezembro, o aniversário de 224 anos do naufrágio do São José. Só percebi isso depois que voltei para casa.
Djaloki disse que os antepassados estavam me orientando.
Albie, um intelectual sul-africano de 87 anos, branco, judeu e eu, uma escritora negra amante da astrologia, do Dirty South, ficamos ali em silêncio em meio ao barulho da festa, em nosso ritual particular, nossa própria cerimônia, homenageando juntos os ancestrais Makua, unidos pelo compromisso de enxergar a humanidade de um grupo de pessoas que decidimos, de forma tácita, recordar naquele dia.
Eu me senti completa.
CRÉDITOS
ROBERTS: Sou Tara Roberts, exploradora da National Geographic, apresentadora e produtora executiva.
Into The Depths é uma produção da National Geographic Partners, financiada parcialmente pela National Geographic Society.
É dirigida pela fantástica Francesca Panettta, que nos levou até a linha de chegada. Obrigada!
Produzida pela incansável e sempre preparada Bianca Martin e meu parceiro incondicional Mike Olcott.
Nossa poeta é a brilhante forjadora de palavras Alyea Pierce, exploradora da National Geographic.
Nossa editora executiva é Carla Wills.
Nosso produtor executivo de áudio é Davar Ardalan.
Nossa verificadora de informações é Kate Sinclair.
Nosso assistente de produção é Ezra Lerner.
Nosso compositor, engenheiro e designer de som é Alexis “Lex” Adimora, que compôs o tema musical.
Nossos engenheiros de áudio são Jerry Busher e Graham Davis.
Agradecemos especialmente a Ainehi Edoro pela ajuda com as pronúncias.
E a nossos consultores, que nos fizeram críticas inteligentes e nos deram ideias e palavras de apoio sempre que necessário: Ramtin Arablouie, John Asante, Greg Carr, Celeste Headlee, Ike Sriskandarajah e Linda Villarosa.
Debra Adams Simmons é a editora executiva de história e cultura da National Geographic.
Whitney Johnson é o diretor de experiências visuais e de imersão da National Geographic.
Susan Goldberg é diretora editorial da National Geographic.
Agradecemos a Fleur Paysour, do Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana, e ao projeto Slave Wrecks por nos abrir as portas, literalmente.
Ao Open Documentary Lab do MIT por ser nosso conselheiro.
Por último, não teria sido possível fazer esta série sem o apoio, a cooperação e a amizade da Diving With a Purpose, da organização Embaixadores do Mar e da Society of Black Archaeologists.
E agradeço também à minha mãe, Lula Roberts, por ser a nossa maior apoiadora e nos lembrar sempre de que o melhor ainda está por vir.
Obrigado por ouvir e atéa próxima!
SHOW NOTES
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Also explore:
Find out more about the Slave Wrecks Project, the consortium of organizations working to uncover and document slave shipwrecks globally, hosted by the Smithsonian National Museum of African American History and Culture.
The Iziko Museums of South Africa provides a closer look at the wreck of the São José through its exhibition, Unshackled History: the Wreck of the Slave Ship, São José, 1794, which includes online resources.
Watch footage from a dive exploring the wreck of the São José off the coast of Cape Town’s Clifton Beach, and hear accounts from historians and the divers documenting the findings.